Cheguei há alguns dias de uma viagem que cruzou metade do Brasil, indo e voltando. Ao todo, foram 4.560 km de estradas a bordo de um ônibus categoria convencional com banheiro (antes não o tivesse), distância suficiente para percorrer, em linha reta, os eixos norte-sul ou leste-oeste deste paisão.
Em tempos de promoções suculentas nas […]
Cheguei há alguns dias de uma viagem que cruzou metade do Brasil, indo e voltando. Ao todo, foram 4.560 km de estradas a bordo de um ônibus categoria convencional com banheiro (antes não o tivesse), distância suficiente para percorrer, em linha reta, os eixos norte-sul ou leste-oeste deste paisão.
Em tempos de promoções suculentas nas companhias aéreas, apenas os loucos e os desinformados encaram uma viagem dessas pelo chão. E informação a esse respeito eu tenho demais. De qualquer forma, ônibus lotado na ida e na volta. Quiçá tenha havido overbooking.
Na ida, nosso caminho foi pelo Piauí. Poeira e calor lutando contra a vedação e o ar-condicionado do busão. Dentro, a luta era pela sobrevivência. Idosos e crianças doentes deixavam o ar carregado. A advertência do motorista de conectar-se ao banheiro somente pela porta USB 1.1 foi ignorada por muitos, que não exitaram em se plugar pela porta paralela. E, a calhar, estávamos cruzando a caatinga.
Na volta, o cenário foi diferente. Praticamente uma viagem fretada pelos neocandangos, trabalhadores nordestinos que daqui saem para construir as edificações do entorno da capital federal, nenhuma delas projetada por aquitetos famosos. É sabido: o êxodo rural perdeu todo o charme que tinha no século passado. Homens com o fruto do trabalho de meses escondido na meia, em notas de 50.
E também haviam os foragidos da justiça disfarçados. Um deles não se importou de dizer que tinha fugido do emprego logo depois de um roubo no seu canteiro de obras no dia do pagamento. “Só porque eu saí de lá sem avisar e sem pedir as contas, eles pensaram que eu estava envolvido no roubo. Mandaram a polícia atrás de mim na rodoviária, mas não acharam nada comigo”, explicou-se o rapaz.
Voltando pela Bahia e por Pernambuco, ao som de música sertaneja, executada à capela por metade dos passageiros. Sucessos da nova boemia suburbana entoados em coro, de Bruno & Marrone a Desejo de Menina. Tudo isso para servir de background a histórias de corações despedaçados pela mulher amada. É, você sabe, trabalhadores viajantes no mundo e mulheres solitárias em casa. Um deles dizia, com um orgulho meio amargurado, ser traído em Brasília e em Fortaleza. É o corno interestadual.
- Liguei do orelhão e, quando ela atendeu, desliguei na cara dela só para mostrar que eu sou homem!
Enquanto o Brasil passava rápido pela janela, vidas eram escancaradas do lado de dentro do ônibus. Entre zombarias e palavras de conforto, a dor-de-cotovelo universal era aplacada.
Foram 80 horas de frases memoráveis, humor simples e honesto, cantoria e risos, que não foram captados pelo microfone do Microfonado, por temor aos assaltos nas estradas. Fica o registro pobre, em tosco português, do que poderia ser uma ótima radionovela.